Machado de Assis

Memórias Póstumas de Brás Cubas


Temáticas e Interpretações

Entre as diversas interpretações que se faz do livro, temos a sociológica. Sob esse parâmetro, Memórias Póstumas é um livro sobre seu tempo e costumes. Críticos que analisam características sociais da trama, destaque para Roberto Schwarz e Alfredo Bosi, notam a volubilidade do narrador da elite e analisam uns e outros personagens de acordo com a sua posição social, além de centrarem-se no contexto ideológico do Segundo Império. Contexto, datas e ambientação são informações importantes para esses críticos. Entre as óticas sociológicas destaca-se as análises de Brás Cubas, homem de família abastada que desde a infância era mimado, uma personagem "beneficiária arrogante ainda que também humilhada da situação propiciada pela escravidão e pelas enormes desigualdades sociais. "Assim, o livro é visto como uma obra que assume o "ponto de vista da melancolia, da ruína e da morte ante a situação, rindo de quase tudo e ridicularizando também os dramas dessas frações beneficiárias, que, contudo, aparecem como comédia ou ópera-bufa." Seria um beneficiário cínico que, como ele mesmo escreve no capítulo final, não trabalhou, não pagou o pão com o suor do rosto, em alusão à Gênesis: "No suor do teu rosto comerás o teu pão", mostrando que a propriedade herdada era muito importante para as personagens e a época, daí a luta constante entre ele e sua irmã Sabina e o cunhado Cotrim em ficar com o dinheiro do pai recém-morto e também da preocupação da divisão do espólio após a morte do próprio narrador. Schwarz refere-se à obra como um retrato do liberalismo de fachada que convivia com o regime escravocata.

Os críticos sociológicos também acreditam que o fato do protagonista ser morto o faz narrar sua vida com "total isenção" e inteiramente "desvinculado de qualquer relação com a sociedade" e, neste descomprometimento propiciado pela morte, possui o poder de dizer, falar, zombar e criticar quem e o que quiser. Outros críticos que também se atém na temática da morte são os preocupados com interpretações cognitivas, existenciais ou psicológicas, que centram-se na figura do humorista melancólico e no discurso do homem subterrâneo, solitário e reflexivo. Isso não quer dizer que muitas vezes uma interpretação englobe outras. Numa análise sócio-psicológica, por exemplo, críticos têm citado a trágica cena do Capítulo LXVIII (68) em que Prudêncio, o moleque negro que na infância de Brás era seu cavalo de montar, quando fica mais velho e livre, compra um escravo para si próprio-cena que é considerada uma das páginas de ficção mais perturbadoras já escritas sobre a psicologia do escravismo. Além disso, é interpretada como uma visão cética quanto aos malefícios da escravidão: violência gera violência e ao oprimido não basta a liberdade. É estudado também o papel não só dos escravos mas de pessoas oprimidas na obra-como Eugênia e Dona Plácida, brancas e livres mas que não deixam de ser humilhadas e ingenuamente dominadas.

A crítica literária não deixa de analisar o caráter filosófico do romance, com o seu Humanitismo e vê que o sarcasmo de Brás Cubas, diante do cientificismo propiciado por Charles Darwin e que no Brasil de 1880 ainda se "dava por coveiro da filosofia", reabre a interrogação metafísica e a perplexidade radical ante o ser humano. De fato, esta filosofia é uma sátira ao positivismo de Comte, ao cientificismo do século XIX e à teoria de seleção natural. Assim, um dos temas do livro, que concerne essa nova filosofia inventada pelo autor, é o de que o homem é sujeito à natureza e seus caprichos e não "soberano invulnerável da criação." Surge pela primeira vez na prosa machadiana no Capítulo CLVII (157) de Memórias, recebendo um adendo no Capítulo CXLI (141), para comentar uma briga de cães. A partir disso, as ideias humanitistas acompanham Brás Cubas até o final do livro; este compreende a teoria, ao contrário do Rubião de Quincas Borba, onde a filosofia fictícia recebe maior explicação e destaque. Por outro lado, vasculhando outros temas, críticos psicanalistas têm notado as cenas de nervoso na obra e não separam a relação que elas tem com a própria saúde do autor, que se acredita ter sido epiléptico, embora não gostasse de tornar isso público, o que o teria feito omitir a palavra "epilepsia" de uma das edições ulteriores, mas que deixaria escapar na edição primeira ao descrever o padecimento da personagem Virgília diante da morte de Brás Cubas: Não digo que se carpisse; não digo que se deixasse rolar pelo chão, epiléptica..., que fora substituída por: Não digo que se carpisse, não digo que se deixasse rolar pelo chão, convulsa... As interpretações sobre a obra foram sendo adquiridas e apresentadas por críticos diferentes ao longo do tempo; Alfredo Bosi escreveu que nenhuma interpretação sozinha, no entanto, seria suficiente para "compreender a densidade do olhar machadiano".

Almeida Garret constituem a gama de autores que mais influenciaram esta obra, sobretudo os capítulos 55 e 139 pontilhados, ou os capítulos-relâmpago (como 102,107,132 ou 136) e o garrancho da assinatura de Virgília no capítulo 142 das Memórias Póstumas de Brás Cubas. Quando Brás Cubas diz que adotou a "forma livre" de Sterne, está explicitando que Machado de Assis foi influenciado pela narrativa digressiva da obra Tristram Shandy. O crítico francês Gérard Genette, por exemplo, escreve que da mesma forma que Virgílio contou a estória de Eneias à forma de Homero, Machado contou a estória de Brás à forma de Sterne. José Guilherme Merquior acrescenta o fato de que a Memórias, contudo, possui uma fantasia não presente em Sterne e um "humorismo sardônico" oposto ao humorismo "simpático" e "sentimental" de Tristam Shandy, e que as obras Viagem à Roda do Meu Quarto (1795), e Viagens na Minha Terra (1846) foram as outras leituras pretéritas e decisivas para a elaboração de Memórias. Merquior também cita outras possíveis influências, como a mitologia clássica, Luciano de Samósata, Fontenelle (especialmente seu Dialogues des Morts, 1683), Fénelon e o Operrete Morali (1826) de Leopardi, que fariam Memórias Póstumas se aproximar do gênero cômico-fantástico, também conhecido como literatura menipéia. No capítulo XLIX, cita o otimista dr. Pangloss, da obra filosófica Cândido de Voltaire, que dizia que "o nariz foi criado para uso dos óculos", e faz com que Brás conclua que a visão de Pangloss está errada pois a explicação sobre o sentido de tal órgão estava na observação do hábito do faquir, que "gasta longas horas a olhar para a ponta do nariz, com o fim único de ver a luz celeste" e "perde o sentimento das cousas externas, embelza-se no invisível, apreende o impalpável, desvincula-se da Terra, dissolve-se, eteriza-se", terminando com a sugestão política de que a necessidade e poder do homem de contemplar o seu próprio nariz são modo de obter "a subordinação do universo a um nariz somente".

De fato, o livro está permeado de influências filosóficas e, inclusive, alguns o consideram o mais filosófico da obra machadiana. Um dos filósofos que faziam parte das leituras freqüentes do autor era Pascal, cujo prenome, Blaise, teria sido traduzido por Brás, o protagonista do livro. A "sensação dupla e indefinível", de céu e inferno, tão exposta por Pascal em Pensées, é logo referida por Brás Cubas no Capítulo XCVIII quando ele está diante de Nhã-loló. Pascal também escrevia que o homem está sempre diante do tudo e do nada, e nas Memórias Póstumas o tema da precariedade da condição humana é expresso pela miséria e pela temporalidade da vida. Embora alguns afirmem que foi com Pascal que Memórias Póstumas adquiriu um tom cético, os estudiosos não deixam de citar Schopenhauer como a principal influência filosófica do livro. Nele Machado teria encontrado visões do pessimismo e ainda desdobrado sua escrita em mitos e metáforas acerca de uma "inexorabilidade do destino". Raimundo Faoro, sobre a obra do filósofo alemão na obra machadiana, argumentou que o autor brasileiro havia realizado uma "tradução machadiana da vontade de Schopenhauer". Estudiosos notam que Machado de Assis conseguiu utilizar a filosofia de Schopenhauer em Memórias Póstumas de uma forma muito profunda. Segundo este filósofo, o universo é a vontade, cega, obscura e irracional de viver e a lei do real não é nenhum logos harmonioso, mas sim um conflitivo querer, fatalmente doloroso, porque necessariamente insatisfeito; "por isso, a dor é a essência das coisas, e só no ideal de renúncia aos desejos se pode colher alguma felicidade. "Então, O mundo como vontade e representação (1819), para alguns, encontra seu cume alto em Machado de Assis com os desejos frustrados do personagem Brás Cubas.

Memórias Póstumas de Brás Cubas influenciou decisivamente os escritores John Barth e Donald Barthelme, que inclusive reconheceram a influência. A Ópera Flutuante, primeiro livro escrito pelo primeiro dos dois, foi influenciado pela técnica de "jogar livremente com as idéias" de Tristram Shandy e de Memórias Póstumas.

Por sua vez, o romance O amanuense Belmiro, de Ciro dos Anjos, tem sido freqüentemente relacionado pela crítica com Memorial de Aires e Memórias Póstumas. Como escreve um dos críticos, O amanuense é "destinado ao registro de impressões autobiográficas de um obscuro funcionário estadual [...] possuindo muitas passagens que lembram as meditações irônicas e pessimistas de Brás Cubas." Ciro via Machado de Assis como seu mestre literário e sua obra é toda permeada pela tentativa de alcançar o estilo dele.

Os estudiosos também traçam diálogos entre este livro e outros da literatura nacional, como Grande Sertão: Veredas (1956), de Guimarães Rosa, que retoma a "viagem de memória" presente também em Dom Casmurro, além de seus textos descreverem doenças mentais como os de Machado; e Memórias Sentimentais de João Miramar (1924), de Oswald de Andrade, obra capital do modernismo no Brasil, que é identificado como uma "homenagem" às memórias de Brás Cubas.

Em se tratando ao próprio conjunto de obras do autor, Memórias Póstumas marcou para sempre a escrita de Machado de Assis e propiciou novos significados e estilos e uma temática amadurecida em diversos contos e mais outros quatro romances prestigiados, todos, como as Memórias, compostos em capítulos curtos, todos (a exceção de Quincas Borba) narrados em primeira pessoa e substancialmente ambíguos e ricos em relação a elementos básicos da história. O caráter fantasioso do livro fez com que críticos, sobretudo estrangeiros, afirmassem que ele antecipa elementos literários do realismo mágico de escritores como Jorge Luis Borges e Julio Cortázar, e mesmo alguns temas do existencialismo contemporâneo de Albert Camus e Sartre, como a relação do fato real e imaginário de Brás Cubas e as outras personagens.

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